domingo, 19 de setembro de 2010

Antropologia Urbana: De Gilberto Velho & Roberto Da Matta a Don Kulick

AÚDIO DIGITADO DA AULA DO DIA O2 DE SETEMBRO DE 2010

AUTOR: Italo Paulo Guedes


A premissa básica da Antropologia é a objetividade. Ser neutro, científico. Isso é mais difícil quando se estudo a própria sociedade e cultura. Gilberto Velho coloca justamente isso: como ser objetivo quando se está no ambiente familiar? Achamos que conhecemos muito bem o nosso próprio mundo. Temos que, no estudo antropológico, conseguir alguma distância. A distância é natural quando você vai para um lugar desconhecido e tudo é estranho. Se já se estranha, antes de chegar, já há alguma distância. É mais fácil estudar alguém que é diferente.

Nós temos que criar artificialmente uma distância para estudar a sociedade. Gilberto Velho (1987), questiona o texto do antropólogo carioca Roberto DaMatta O ofício de Etnólogo, ou como ter ‘Anthropological Blues’ (1978), perguntando o que vem a ser realmente distância, essa diferença entre o que é familiar e o que é exótico. Ele dá um exemplo, dizendo que foi num congresso e encontrou pessoas de várias nacionalidades e encontrou muitos pontos em comum. Às vezes você encontra pessoas de culturas diferentes, Japão, Brasil, Inglaterra, mas são capazes de comunicar bem, e passar a noite juntas, curtindo as mesmas coisas.

Esse tipo de leitura crítica é normal na Antropologia.

Então, o que significa “distância”? Será essa diferença entre o familiar e o exótico? Isso é suficiente para determinar o que é distância? Que tipo de distância é? É geográfica? Ecológica? Social? Se é necessário uma distância social, uma pessoa da classe média alta tem que estudar uma pessoa da classe popular. Mas na verdade, se você pensa nessa tensão, nesse constante jogo entre ser objetivo e ser subjetivo, essa distância é um jogo entre identidade e diferença. Ter uma afinidade ou ter uma distância não obedece a critérios nem sociais, nem geográficos. Nesse processo, a comunicação é vital. Quando você quer resolver o problema de buscar objetividade, você deve pensar as formas de comunicação. Como você se relaciona com as pessoas que você está estudando.

A questão da separação entre o familiar e o exótico é artificial, segundo Gilberto Velho. Algo que tem que ser mantido de uma forma artificial para conseguir objetividade, mas ao mesmo tempo se você consegue se comunicar, você tem uma aproximação. Não é uma ida simples do familiar para o exótico e um regresso simples do exótico para o familiar original, no momento que você familiarizou com o exótico. É bem mais dinâmico do que isso. No processo de estranhamento, você vê coisas que são naturalizadas para os nativos. Esse processo é basicamente, via intelectual, via as idéias que guiam a sua investigação e emergem desta.

Assim, Gilberto Velho já dá algumas idéias que vão além do texto de Roberto DaMatta, que traz toda essa questão do exótico e do familiar. Quando ele olha as pessoas do apartamento dele ele pode categorizá-las. Ele conhece suas categorias sociais. Ele não sabe, no entanto, o ponto de vista das pessoas, como eles entendem a vida deles, o mundo ao redor deles, que poderiam até atribuir moralidades pra eles, aspectos morais. Além da expressão “ponto de vista”, um dos objetivos da observação participante, outra também muito usada é “ethos”, a forma em que um determinado povo aborda o mundo. Não é um estereótipo. Você vai conhecer o ethos de um povo através da pesquisa, que é desconhecido antes da pesquisa. Se pode presupor que um povo, mas também um grupo social, tenha um ‘ethos’, por exemplo, o ethos dos porteiros, dos pedreiros, etc. Gilberto Velho diz que uma cidade tem muitas descontinuidades e diferenças, o que leva à possibilidade de estranhamento, de choque cultural, de não reconhecer o outro como você. Ou seja, um afastamento ao invés de uma aproximação.

A aula tratou em seguida de um texto sobre os travestis, que aborda o ethos dos travestis (Kulick 2008) . Como você pode tornar familiar a cultura das travestis? A professora falou, ‘Repare que cultura é uma expressão de algo que é criado historicamente, num momento específico. Então se existiam travestis como a gente conhece hoje, cem anos atrás, tinham uma cultura diferente. Essa cultura que inclui silicone para mudar o corpo foi algo que surgiu recentemente.

O quê que o antropólogo faz? Don Kulick descreve como nesse texto. Ele ficou oito meses no local, um casarão no Pelourinho. Tem muita discussão porque dizem que ele teria vantagem para estudar as travestis por não ser brasileiro. Na realidade, ele aprendeu tudo que ele sabe sobre o Brasil praticamente através dos travestis. Elas que foram as que mais ensinaram ele sobre o Brasil. Ele aprendeu o Brasil na perspectiva delas. Outro ponto que ele aborda é como eles percebem os transexuais. Isso é fruto da observação em um nível mais profundo do que essa descrição que ele faz. Esse é um ponto que ele vai tratar começando com a discussão sobre o quê que tinha sido produzido sobre as travestis na literatura antropológica.

Kulick, além de antropólogo, é também lingüista. Lendo o seu livro, vocês vão perceber que ele transcreve longos trechos de entrevista. Ele foi formada em uma linha da antropologia norte-americana, que é a Antropologia Lingüística. Além disso, ele leu constantemente, quando estava aqui, artigos de revistas, reportagens, comentários mais gerais sobre os travestis veiculados pelo meios de comunicação no Brasil. Para Kulick alguns estudos brasileiros ainda não tinham se afastado de certos preconceitos em relação às travestis: Preconceitos não no sentido pejorativo, mas conceitos que já existiam sobre os travestis quando escreveram. Ele atribui isso também ao fato de os pesquisadores não conviverem com os travestis durante a pesquisa de campo. Para muitos estudiosos as travestis são a ambigüidade em pessoa. Não sabem se são homens ou mulheres. Tem problemas psicológicos. Ele mostra como isso também está espalhado na imprensa. Kulick diz que, ao contrário, as travestis cristalizam a percepção a cultura brasileira sobre sexo e gênero. Definem com nitidez o quê que é esse jeito brasileiro, essa cultura brasileira. Então, ele defende que, na cultura brasileira, a identidade sexual de uma pessoa não está no corpo biológico, mas, está na posição que se toma no ato sexual. Do ponto de vista das Travestis (e, segundo Kulick, da cultura brasieira) é ato sexual que define o gênero.

Ele ficou famoso como o antropólogo que defendia que no Brasil só existiam dois gêneros: homem e não-homem.

Outro ponto importante colocado claramente por Gilberto Velho é que quando a gente fala de que, para estudar sua própria sociedade, você tem que tirar os estereótipos, você tem que estranhar o familiar. Você deve estar aberto a perceber as hierarquias. E muitas vezes as hierarquias sociais já trazem consigo os estereótipos. O antropólogo que quer estudar sua própria sociedade tem que estar o tempo todo se auto-criticando, criticando sua própria sociedade.

Referências Bibliográficas

DaMatta , Roberto. ‘O ofício de Etnólogo, ou como ter “Anthropological Blues”’ In Nunes, E. de Oliveira (org) A aventura sociológica. RJ: Zahar. 1978. Pp.24-35.
Kulick, Don. ‘Introdução’ In Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil RJ: Editora Fiocruz. 2008. pp. 18-35
Velho, Gilberto. ‘Observando o familiar’. cap. 9 In Indivídualismo e Cultura. RJ: Jorge Zahar. 1987. Pp. 121-132

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Kula no "Argonautas do Pacífico Ocidental", de Bronislaw Malinowski

<Autoras: Cetilá Itas e Deise Santos

A aula ministrada pela professora Cecilia McCallum no dia 24/08/10 discutia o estudo etnográfico que Malinowski fez da instituição do Kula. Se baseou no capítulo introdutório do livro “Argonautas do Pácifico Ocidental” onde ele faz um resumo dos seus achados sobre esta instituição. O Kula é uma troca cerimonial de objetos, praticadas por homens que moram em um anel de Ilhas localizados ao norte e leste de Nova Guiné.


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Malinowski morou vários anos com os Trobriandeses, na ilha de Kiriwina, que pertence ao grupo de ilhas nesse anel conhecido como as Ilhas Trobriandeses. O objetivo da aula era ilustrar a discussão dos métodos de pesquisa etnográfica utilizados por Malinowski, discutidos em aula anterior. A professora pediu a um dos alunos para fazer um mapa das Ilhas Trobriandesas no quadro para facilitar entendimento durante a aula.










Para ver imagens do Kula e dos trobriandeses a professora sugeriu o documentário da BBC; “Tales From The Jungle”, que retrata a vida de Malinowski, o interesse pela antropologia e como se tronou antropólogo. Para assistir o vídeo podem acessar o site youtube no interne.



Ao iniciar a discussão sobre o Kula, discutiu-se quem são os trobriandeses e qual a tecnologia utilzada para o transporte marítimo quando Malinowski realizou o seu estudo (1914-1918). Os trobriandeses viajavam em alto mar utilizando canoas precárias para participarem nos rituais e cerimônias das trocas kula, em datas antecipadamente marcadas. Os rituais e cerimônias do kula eram acompanhados por transações paralelas, bem distintas, de fins comerciais, chamados de “gimwali”. O gimwali era escambo simples, enquanto o kula era com um jogo sofisticado, cheio de regras, de ceremonia e de magia. Os produtos trocados no gimwali variam de região para região, enquanto na troca ceremonial kula, que era desenvolvida entre dois parceiros, se trocava apenas dois tipos de objetos de valor simbólico. Cada tipo era ligado a uma rota a ser seguida, em direções opostas. Em uma destas rotas os longos colares de conchas vermelhas, denominados soulava, seguiam no sentido dos ponteiros do relógio; na outra rota, as braceletes de conchas brancas, denominados mwali, seguiam o sentido oposto. Malinowski conta que era interessante para cada integrante ter uma quantidade significativa de parceiros, pois isso lhe atribuía “poder”. Os objetos entregues aos seus parceiros poderiam não ser retribuídos no mesmo dia - talvez demorasse um dia, meses, ou anos. E por uma questão ética o parceiro deveria aguardar sem demais cobranças. Na instituição tinha regras que eram respeitadas pelos integrantes.

As mulheres não realizavam trocas durante as cerimônias de Kula, mas isso não queria dizer que não tinham poder próprio. A sociedade Trobriandesa é matrilineal. Quer dizer, ao nascer o filho pertence à linhagem da mulher, portanto a classificação social é matrilineal e não patrilineal...



Malinowski na condição de etnógrafo estava atento aos sentidos relacionados aos costumes. Para ela, a imparcialidade, observação minuciosa, e análise sobre os fatos verificáveis era imprescindível.. Ele tanto estudava do ponto de vista dos nativos (o êmico) quanto do ponto de vista do observador de fora (o ético). É importante ressaltar que o etnógrafo se depara com diversas declarações preconceituosas que se não analisadas com imparcialidade poderão interferir no desenvolvimento da sua pesquisa. O etnógrafo no inicio tem dificuldades de comunicação, pois há necessidade de aprender a língua dos nativos estudados. Algumas expressões não são passíveis de tradução. Malinowski aprendeu a falar língua trobriandes, para poder dar continuidade a sua pesquisa com o povo trobiandes. Ele insistia que era preciso se ambientalizar e ficar atento aos detalhes.

Ao retornar para a Europa Malinowski depois da pesquisa, o antropólogo comparou as jóias da coroa com os objetos de adorno muitas vezes gastos, feios e engordurados trocados entre os nativos das Ilhas trobriandesas – quer dizer os soulava e os mwali, tão apreciados e exataldos, com alto valor simbólico para os nativos. Assim Malinowski pode entender o significado das trocas ceremoniais em cada região. As jóias da coroa, que são entregues a cada nova geração dos familiares, possuem alto valor simbólico e sentimental, alem do valor simplesmente comercial. Desse modo, a semelhança entre os objetos de kula e os objetos herdados em famílias europeus pode ser ligada ao valor sentimental e simbólico que ambas possuem para os povos distintos.

O assunto foi encerrado falando sobre a função Kula e as formas de organização social. Chegou-se a conclusão de que essa relação é extremamente ligada ao pode e paz entre os povos e basea uma supra organização que conecta as doferentes ilhas do anel.




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Aula de 9/9: Introdução à História da Antropologia

Autores: Heitor Maia e Jéssica Costa

No início da aula a professora Cecília McCallum sugeriu a leitura do livro “História da Antropologia” de Thomas Hylland Eriksen e Finn Sivert Nielsen, para melhor entendimento sobre o nascimento e desenvolvimento da Antropologia Social e Cultural.

Posteriormente a profª Cecília fala sobre o humanismo, que pode ser definido como um conjunto de ideais e princípios que valorizam as ações humanas e valores morais (respeito, justiça, honra, amor, liberdade, solidariedade, etc). Para os humanistas, os seres humanos são os responsáveis pela criação e desenvolvimento destes valores. Desta forma, o pensamento humanista entra em contradição com o pensamento religioso que afirma que Deus é o criador destes valores. Foi ressaltado em aula que o renascimento do século XV e XVI foi um movimento de um lado político e de outro religioso, tendo constante confronto entre cristianismo e o protestantismo. O contato com o outro ser e a questão da alteridade surgiu exatamente nessa época. Surge então a pergunta: “A Antropologia teria surgido com o movimento Humanista ou anteriormente na Grécia antiga com Heródoto?” A filosofia Humanista enxerga todos os homens como iguais. Já Heródoto foi o primeiro a descrever outros povos, porém, ele tinha uma postura preconceituosa e etnocêntrica em alguns de seus escritos etnográficos.

Segundo a professora, essa abordagem sobre o Humanismo ajudará futuramente na interpretação de um texto do antropólogo francês Lévi-Strauss, quem disse que a antropologia moderna (que muitos afirmam começou com Malinowski e o método etnográfico) é a mais perfeita Forma de humanismo (Lévi-Strauss 1973),

Nesse momento o foco da aula mudou para o desenvolvimento da Antropologia no século XIX. Nessa época, a palavra “Antropologia” significava o que hoje chamamos de Antropologia física ou biológica; e a palavra “Etnologia” significava o estudo dos traços culturais de outros povos. Na etnologia daquela época, se estudava principalmente os “outros” como se fossem povos pré-históricos (o caso dos povos indígenas das Américas, os aborigens da Australia e Papua, ou os Africanos, p.ex.) ou como arcaicos. A etnologia focava tanto o passado quanto o presente, sempre considerando os antigos e os povos não-ocidentias contemporâneos como mais primitivos e”inferiores” relativos aos ditos “civilizados” , que supostamente gozavam do grau máximo de civilização .

No decorrer da aula, a profª falou do texto “Introdução à Antropologia Social”, de Lucy Mair. O texto trata das idéias dos séculos XVII, XVIII e XIV e as impressões que os Europeus tinham sobre os povos indígenas das Américas. Ela citou também Rousseau que tinha uma visão positiva dos povos indígenas e criou a idéia do “bom selvagem”, baseada nas descrições dos viajantes. Esse filosofo do século XVIII construiu uma imagem de povos que viviam em uma espécie de paraíso, onde na existia pecado.




Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Célebre filósofo suíço, escritor e teórico político. Foi Uma das figuras marcantes do iluminismo francês, e é considerado um precursor do romantismo


Já Hobbes acreditava que no estado natural esses povos eram inferiores e bárbaros, e que representavam o estado natural de todo e qualquer ser humano. Esse filósofo escocês observou que a vida humana sem a intervenção do estado é curta e bruta. A profª também citou um filme como veiculando muito bem uma visão pessimista e Hobbesiana acerca da humanidade, denominado “A estrada” (The Road – com Viggo Morgensen, de 2009).

Para os etnólogos do século XIX, os povos que eles consideravam como “primitivos” podiam se desenvolver como ou europeus: podiam alcançar o mesmo grau de civilização através de educação e reformas. Lucy Mair também fala a respeito do geógrafo e etnólogo alemão Bastian, que muitos consideram o pai da Antropologia alemã, que no meio do século XIX criou o termo “Unidade psíquica da humanidade”. Como essa expressão ele queria dizer que todas as pessoas, mesmo de lugares afastados, possuíam a mesma capacidade mental.


Adolf Bastian: Autor da famosa frase: “Unidade psíquica da humanidade”, a qual dizia que todo ser humano é igual em capacidade mental.






Durante o século XIX essa teoria foi aceita pela maioria dos etnólogos, quem desenvolviam uma abordagem teórica conhecida como "Evolucionismo Cultural ou Social Clássico". Posteriormente, até o início do século XX, o evolucionismo cultural e social foi substituído pelo difusionismo.



Referencias Bibliográficas
Lévi Strauss, Claude. ‘Os três humanismos’ seção de cap. XV – Respostas a algumas investigações - In Antropologia Estrutural II. (3 páginas) [1973]

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Pesquisa Antropológica. O Trabalho de Campo

Autores: Fábio Maia & Fernanda de Araújo.

A aula foi iniciada confirmando a exposição no dia 31/0/8/2010 de um filme com temática indígena que será base para seminários a serem apresentados pelos estudantes.

Sequencialmente foi relembrado à importância do método etnográfico, assunto já estudado em aulas anteriores. Ao comentar sobre a abordagem empregada nos cursos de antropologia em universidades brasileiras, e os fatores que levaram a professora a iniciar o programa do curso que desenvolve em antropologia I pelo estudo do método etnográfico, a professora enfatizou que a frase “a antropologia moderna” significa aquela em que se uso o método etnográfico. Ainda, mostrou a importância de se conhecer esse método de estudo para melhor entender como se alcança o resultado final da pesquisa em antropologia. A antropologia moderna busca explorar o estudo de diferentes culturas e povos através da observação e convivência com os mesmos. Durante a aula reforçou o trabalho pioneiro de Malinowski de sair do gabinete e realizar a antropologia tal qual ciência, e não se tirar conclusões para construção da analise sobre um determinado tema somente a partir de registros escritos por terceiros - como era feito pelos “antropólogos de gabinete” - e sim através da obtenção de dados durante a observação participante.


* Considerado um dos grandes nomes das ciências sociais brasileiras, da Matta é autor de diversas obras de referência na antropologia,sociologia e ciência política, como “Carnavais,malandros e heróis”, “ A casa e a rua” e “O que faz o Brasil,Brasil ?”

É levantada em sala a seguinte questão: a antropologia é ciência?


Ao explorar o significado e as implicações da frase “observação participante”, chega-se ao meio termo entre o objetivo e o subjetivo: ou melhor, chega-se a ver uma constante tensão. Essa tensão caracteriza as pesquisas etnográficas. A professora pede que por alguns instantes os alunos se imaginem imersas em uma outra cultura, e pergunta: quais seriam as nossas reações diante de costumes diferentes aos nossos? Respondendo a esses questionamentos teríamos um pouco a noção de até que ponto vai a imparcialidade do pesquisador.


Passa a ser trabalhado em sala o texto de Roberto da Matta sobre “o ofício do etnólogo” ou como ter “anthropological blues” que havia sido recomendado como leitura e atividade de resumo na aula anterior (ver programa postado anteriormente para a referência). A professora tocou em alguns dos pontos centrais trabalhados por esse famoso antropólogo brasileiro.


O primeiro ponto de observação que o autor destaca é da necessidade de se realizar uma pesquisa teórica e bibliográfica antes de partir para uma pesquisa de campo. A preparação do projeto de pesquisa através da revisão da literatura sobre o povo e o tema a ser investigada vai oferecer ao pesquisador inúmeras sugestões a serem aplicadas e desenvolvidas durante o momento físico de sua pesquisa, e auxiliá-lo na realização de um trabalho mais eficiente, pois certamente será essa bagagem intelectual que irá direcionar o pesquisador.


Para ilustrar esse ponto de Roberto da Matta, a professora discutiu um exemplo tirado da sua própria pesquisa de campo. Enfatizou de que forma o estudo de parentesco é importante para o entendimento estrutural da sociedade estudada, pois todo grupo social possui relações alicerçadas no parentesco. Para isso, à identificação dos termos de parentesco específcas àquela cultura é imprescindível. Nesse momento a docente cita como exemplo diagramado no quadro, as relações de parentesco dos índios “Kaxinawá” (auto-denominação Huni Kuin). Antes de partir para o camp, outro antropólogo havia estudado o tema. Nessa sociedade, a regra do casamento ou residência pós matrimonial é a “uxorilocal”, ou seja, o homem deve morar junto à família da mulher. Nessa sociedade, os costumeiros matrimônios através das “trocas de irmãos”, proporcionam o agrupamento da família, que é preservado nas seguintes gerações quando se procura repetir a troca. Desse modo, um irmão e uma irmã deve casar com um casal de irmãos de sexo cruzado, que são seus “primos cruzados” (ou seja, uma pessoa casa com o filho de um tio que é “irmão da mãe” e uma tia que é “irmã do pai”).


A professora respondeu em seguida a perguntas sobre os casamentos arranjados, homossexualidade e conduta moral indígena. Observou que apesar de não seguirem um código escrito de direitos e deveres, os Huni Kuin asseguram o controle social e moral da aldeia através das suas práticas culturais. A professora relatou diversas das suas experiências como antropóloga durante o seu convívio com os índios, citando as regras punitivas do grupo, onde o indivíduo que comete um erro, independente de sua idade e posição social, é reprimido verbalmente por todos da comunidade.


Retomada a questão da antropologia como ciência, o olhar de Roberto da Matta é analisado e discutido entre os alunos por inovar a questão do emocional presente no trabalho do pesquisador a partir do momento que o próprio defende a existência de “dois mundos” ou dois sistemas de significados. Nessa perspectiva, Da Matta coloca em questionamento as relações humanas dentro do trabalho do antropólogo, falando do erro de postura de alguns antropólogos que preferem omitir de forma inapropriada a subjetividade vivenciada em seu trabalho. Relembrou como Da Matta rubricou as varias fases de pesquisa, como a fase “teórico intelectual” de preparação e planejamento, onde o pesquisador organiza como será desenvolvido o seu trabalho e a fase final “presencial e existencial”, iniciada com Malinowski que observava os imponderáveis da vida social, para aproximar-se mais do objeto estudado.

É reafirmado que o antropólogo vai fazer a sua pesquisa de campo ciente que irá estudar pessoas que agem com lógica independente da nossa visão sobre as suas ações, pois as mesmas sempre contam com um significado para eles.

São debatidos rapidamente em sala os seguintes assuntos: complexidade das culturas e o relativismo cultural, através da discussão de um exemplo: A pena de morte por apedrejamento que foi imposta a uma mulher acudsada de adultério no Irã, e que é alvo dos noticiários televisivos. A docente sugeriu que ao reconhecer que há uma outra moralidade e uma lógica cultural atrás dessa pena, estamos adotando uma postura de “relativismo cultural”, ou seja, reconhecendo a diferença de abordagem e de opiniões, presente nas culturas.


A aula foi finalizada comentando-se sobre a transformação do familiar no exótico, onde o pesquisador deve tentar de forma “xamânica” se afastar do seu interior.







Considerado um dos grandes nomes das ciências sociais brasileiras, da Matta é autor de diversas obras de referência na antropologia,sociologia e ciência política, como “Carnavais,malandros e heróis”, “ A casa e a rua” e “O que faz o Brasil,Brasil ?”