quinta-feira, 28 de abril de 2011

"ANTROPOLOGIA: ORIGEM E MÉTODOS" por Samuel Barros


( Notas feitas durante a aula da disciplina Antropologia I, ministrada pela professora Cecília McCallum, no semestre letivo 2011.1.)

1. A antropologia moderna desenvolveu uma visão ‘holista’ das sociedades e culturas humanas. Isso quer dizer que, ao pesquisar uma sociedade específica, ela estuda todas as esferas da vida do povo a partir do entendimento de que são integradas. Ou seja, a postura adotada é de procurar apreender uma sociedade ou uma cultura como um todo composto de partes inter-ligadas (holismo).

2. Quanto às bases teóricas da disciplina, faz-se necessário pontuar uma diferença entre a antropologia social, de base francesa e desenvolvida por antropólogos britânicos, e a antropologia cultural, de base germano-norte-americano. Nos EUA, a antropologia divide-se em quatro ramos (a abordagem de “quatro campos”):

- arqueologia

- lingüística

- antropologia física ou biológica

- antropologia cultural


3. Há uma dimensão de disputa na discussão da origem comum da humanidade. No entanto, respaldados pelos estudos antropológicos, é preciso sustentar o nascimento comum como meio de combater o entendimento recorrente em alguns meios de que existem diferentes raças humanas.

METODOLOGIA DA PESQUISA ETNOGRÁFICA

4. Em um momento anterior a Malinowski (que publicou o seu livro sobre os Trobriandeses em 1922) a antropologia era feita a partir dos gabinetes. Com ele, no entanto, desenvolve-se a pesquisa de campo e uma metodologia etnográfica.

5. Por metodologia, entendemos a junção entre lógica e método para o estudo de algo. É o desenvolvimento de uma estratégia lógica para o estudo de um determinado fenômeno. Pontua-se que nem toda metodologia é “cientifica”, como, por exemplo, a metodologia empregada pelos “antropólogos de gabinete” do século XIX, que Malinowski considerou falha.

6. A metodologia etnográfica tem como ferramenta, basicamente, a observação participante. Por observação participante, entende-se uma técnica de investigação usada nas ciências sociais, sobretudo na antropologia, através da qual o cientista, para observar com maior fidelidade e complexidade, participa das circunstâncias sociais que estuda. Trata-se, portanto, de uma técnica composta que oscila entre aproximação e distanciamento, entre uma visão aérea para entender as lógicas gerais das comunidades humanas (observação) e uma imersão na vida cotidiana para alcançar as chaves interpretativas, para entender as sociedades estudas, segundo os seus próprios sistemas de valores (participação). Para ser bem sucedido, por vezes, o antropólogo precisa aprender as normas de convivência, a distribuição do poder, a linguagem, o significado dos acontecimentos sociais, entre outras disposições para que o conhecimento adquirido seja o mais fiel possível aos fatos. Em resumo, considerando em separado o termo “observação” e “participante”, podemos estabelecer que “observação” tem uma dimensão mais objetiva, enquanto “participante” é mais subjetiva. Como exemplos, podemos citar o trabalho de Malinowski, ao pesquisar a lógica de trocas do Kula. Ao mesmo tempo em que ele fazia tabelas detalhadas sobre o fluxo de mercadorias e presentes, ele estava imerso na situação para ser capaz de entender aqueles povos pela sua própria lógica cultural. Não por acaso, os resultados de uma pesquisa que emprega a observação participante são mais ricos, quanto mais tempo o pesquisador permanecer em campo (longa duração).

7. O antropólogo precisa envolver-se com o objeto de estudo, mas, no entanto, é preciso pontuar que esta aproximação tem limites. Estes não são facilmente prescritos por regras gerais, mas antes é necessário avaliar o nível do envolvimento, em cada caso, a partir da lógica cultural. De modo geral, o antropólogo, em seu trabalho, não pode esquecer que cada sociedade humana tem uma determinada lógica cultural, ou seja, o modo como os sujeitos significam o seu tempo e espaço.

METODOLOGIA CIENTIFICA

8. Um conceito central para entender o que é uma metodologia cientifica é a Epistemologia, entendida como a Teoria do Saber ou a Lógica do Conhecimento. A primeira forma lógica de produção de conhecimento cientifica é a dedução. Por dedução entendemos a fixação de um pressuposto geral, de onde por operações lógicas se faz o teste da verdade das proposições especificas. Desse modo, uma metodologia dedutiva lança mão do teste de proposições hipotéticas, que seriam verificadas ou falsificadas durante o teste, para construir o conhecimento. Este é o paradigma epistemológico colocado por Descartes.

9. Malinowski, por sua vez, pregou o uso da indução como método científico. A indução é, basicamente, o processo de descobrir explicações gerais a partir do estudo dos casos particulares. O método de indução foi fundamentado como método científico pelos empiristas ingleses, entre os quais, Bacon e Locke. Malinowski é muito influenciado pelo empirismo.

10. No entanto, é preciso frisar que a antropologia pautada no método etnográfico usa tanto a dedução, como a indução. A indução na antropologia toma a forma de observações minuciosas e de participação na vida do povo estudado, enquanto a dedução na antropologia deve ser pautada na leitura cuidadosa e na análise crítica dos estudos etnográficos já publicados sobre o povo e sobre os temas em foco.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Locais das aulas ABRIL & MAIO - ANT1 - 2011.1


TERÇA-FEIRAS - Sempre
na Sala 29 do PPGA, São Lázaro - na pavilhão baixo (de 2 andares), que fica em frente a biblioteca, ao lado do kiosk. Todas as terças teremos essa sala a disposição.

Nas quinta-feiras:

28 abril- No auditório do CRH (Pavihão de Aulas de Sâo Lázaro - PASL) também conhecida como PATA ((Pavihão de Aulas Thales de Azevedo)

5 maio - Auditório do CRH

12 maio - Auditório 2,
Pavihão de Aulas de Sâo Lázaro - PASL) também conhecida como PATA ((Pavihão de Aulas Thales de Azevedo.

19 maio - Auditório Audio-Visual, Biblioteca, São Lázaro

26 maio - Auditório Audio-Visual, Biblioteca, São Lázaro



Cecilia McC

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sobre Antropologia Interpretativa

Autor: Pedro

Resumo de Aula:

Concluindo alguns conceitos de Antropologia Interpretativa da aula anterior, inicia-se a aula com definições de literatura, linguagem e cultura. O tema da aula - a teoria interpretativa de cultura desenvolvido nos anos 60 por Clifford Geertz, considerado como um “guru” dessa forma de antropologia simbólica.

Começamos a nos aprofundar sobre o trabalho de Geertz, e suas pesquisas de campo, sobretudo em Bali. Para fazer esse tipo de estudo é necessário identificar os símbolos públicos e todos os seus significados, e ainda, procurar identificar estes através da "perspectiva do nativo". O capítulo discutido na aula - Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galos balinesa - trata de importantes simbolos publicos em Bali na época que o casal Geertz residiu lá (anos 1950).

Discutimos a colocação de Geertz de que as “pessoas são tão convencidas com sua cultura, nascendo, vivendo e morrendo sem se questionar sobre essa ”. Essa percepção é relacionada com a noção de hermenêutica na citação:

“As pessoas criam uma correspondência sobre um mundo como parece ser e como deve ser.”

Geertz defende que a cultura tem duas faces: A primeira seria um sistema integrado de símbolos públicos, dentro dos quais os indivíduos habitam e os quais manipulam. (Adonias - aluno de CISO - comentou que tal definição se assemelha à idéia de Durkheim, onde o ser humano já nasce numa estrutura já estabelecida.) A segunda face da cultura, no entanto,´seria que simultaneamente esses sistemas habitam os indivíduos, ou seja, os símbolos públicos habitam os mesmos como matrizes geradoras de ação e pensamento, conduzindo uma pessoa a ver o mundo como inteligível e natural. Tal definição do Geertz se baseia na influência weberiana.

Geertz fala também que o homem é um animal suspenso em uma rede de significados, que ele mesmo tem tecido. Exemplifica esse ponto na sua análise da briga de galos em Bali, mostrando que a pessoa já nasce nesta rede de significado e acaba se habituando, tornando-a uma coisa natural.

Para relatar esses sistemas de símbolos, pensamos primeiramente em lógicas culturais, onde o antropólogo é o tradutor de seus significados, sendo a técnica, mas eficaz, abordada por Geertz, a descrição densa.

No decorrer da aula, ficou claro que o objeto de uma pesquisa que procura fazer uma descrição densa, (ao exemplo do estudo de campo que Geertz fez do 'ritual' da briga de galos em Bali), não precisa ser somente sobre ritual ou religião, mas, de uma forma abrangente, pode ser de outras atividades coletivas, como o futebol. O importante é procurar ver a lógica cultural, que está atrás do interesse individual.Para compreender o significado das rinhas para o povo balinês, é necessário entender a sua ordem social, a relação entre os participantes e as hierarquias estabelecidas. Para isso, precisa compreender o contexto histórico da organização hierarquica nas aldeias, que começou como castas (do Hinduísmo), o que resultou numa idéia de status, onde cada pessoa nasce com a sua posição já estabelecida.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

FUNCIONALISMO & FUNCIONALISMO ESTRUTURAL

Autoras: Nágela Weber e Simone Cerqueira

Ata da aula de 28.10.2010

A professora Cecília McCallum inicia a aula relembrando a anterior e nos diz que Malinowski, criador do Método Etnográfico, não é conhecido como um bom teórico, mas defendia uma teoria antropológica conhecida como funcionalismo. Há várias teorias funcionalistas na sociologia, na psicologia, porém, hoje, a nossa aula será sobre o funcionalismo de Malinowski e o funcionalismo-estruturalista que Radcliffe-Brown defendia. As duas abordagens são relacionadas, mas, ao mesmo tempo, têm suas diferenças. Para melhor entendimento a professora faz uma esquematização e utiliza-se de slides produzidos no semestre 2010.1 por Bruna Zagatto (estudante do mestrado), para demonstrar o que é semelhante e o que é diferente nas duas teorias.

Segundo a professora, a primeira coisa que se tem, a saber, sobre o desenvolvimento destas teorias é a conjuntura histórico-social da época e lembrou que Malinowski, durante a primeira Guerra Mundial teve seus movimentos limitados. Após o término da guerra ele voltou para Inglaterra e foi professor no LSE na Universidade de Londres onde desenvolveu uma escola ‘funcionalista’. As ideias dessa escola continuaram muito importantes para a antropologia até os anos 60. A relação entre a teoria funcionalista e o campo, o lugar de fazer a pesquisa, a forma de escrever as monografias etnográficas, também chamadas etnografia, foi fundamental, pois nesse período, só se fazia teoria atrvés de estudos específicos de determinados povos, uma abordagem onde a análise teórica era feita apenas na discussão de dados empíricos.

Nessa época, a conjuntura histórico-social também influenciou a antropologia. Tinha movimento de pessoas entre países, muitas vezes porque essas pessoas eram “mal vistas” nos seus países de origem. Os eventos e processos políticos da época evidenciaram a pior forma de racismo que se vai conhecer: O extermínio e perseguição de milhares de judeus. Dentre as categorias de pessoas mal-vistas eram muitos estudiosos, como por exemplo alguns dos quatro grandes antropólogos fundadores de várias escolas da antropologia moderna.
Cada um tinha características sociais diferentes.

* Radcliffe-Brown FUNCIONALISTA ESTRUTURAL , era operário inglês, que teve grande êxito, mas tinha que se provar o tempo todo, pois sofria de preconceito, direcionado naquela época contra pessoas de origem 'baixa'. por causa das diferenças culturais entre as classes.

* Malinowiski (era migrante polonês), FUNCIONALISTA.


* Marcel Mauss (1872-1950) da França era judeu da ESCOLA FRANCESA.


* Franz Boas (1858–1942), Estados Unidos (era alemão judeu), ANTRÓPOLOGO CULTURAL.

Voltando ao objeto da aula, a profª. Cecilia falou que o foco estava nas duas escolas britânicas: a de Oxford fundada por Radcliffe-Brown e de, Londres, centrada em Malinowiski.


Radcliffe-Brown levou suas idéias para todos os continentes: Ficou na Austrália por quatro anos, foi para África do Sul, veio para S. Paulo como professor visitante (mas nunca aprendeu a falar português), foi Professor de antropologia na Universidade de Chicago, EUA. Entre os seus sucessores mais ilustres, Evans-Pritchard, Fortes, Max Gluckman, Srinivas, antropólogo indiano.
Em Londres Malinowiski, que era aluno de Seligman, influenciou Raymond Firth, Audrey Richards, Edmund Leach e Issac Schapera, entre muitos outros. Muitos desses antropólogos trabalharam na África.


A professora diz que é difícil explicar a teoria da evolução das ideias antropológicas, sem fazê-la a partir da leitura da etnografia, mas isto deverá ser visto na Antropologia II e III. Dessa lista, cada um tem um modo diferente de escrever sobre suas pesquisas etnográficas e assim fazer teoria antropologia.

Diferenças entre o funcionalismo-estrutural e o funcionalismo

Funcionalismo-estrutural

Crítica severa à história conjetural dos evolucionistas.

Análise sincrônica (presente etnográfico)

Análise estrutural durkheimiana.

Indivíduo é produto da sociedade.

Estudos na África.

Estudos de parentesco e organização social e política


Funcionalismo

Crítica severa à história conjetural dos evolucionistas.

Análise sincrônica (presente etnográfico)

Etnografia detalhada.

Individualismo metodológico.

Estudos no Pacífico.

Estudos da religião, língua, práticas culturais, organização social.



A Profª explica que para Malinowski a família é uma instituição influenciada pelo contexto. Ou seja, as outras instituições ao seu redor a afetam e são também por ela afetadas. Consequentemente, em cada sociedade, a família tem aspectos singulares, talvez únicos. Assim, ele defendia que a família biológica é UNIVERSAL más é transformada em cada sociedade no ESPECÍFICO (a família Trobriandesa, a família Kaxinawá, Panará, etc.). As diferenças e semelhanças só podem ser reveladas através de estudos científicos. Eventualmente ele desenvolve o método etnográfico. O estudo científico de Malinowski determina que o pesquisador tem que conviver imerso no objeto de estudo, aprender a língua. A Teoria Funcionalista emerge também estritamente ligada ao Método Etnográfica. Um ponto importante no funcionalismo é que uma instituição qualquer - por exemplo, um tipo de casamento, ou o kula, ou um complexo xamânico - é vivenciada pelos indivíduos que a compõe. Para estudá-la, não basta ir conversar e fazer entrevistas; também é necessário ver como fazem na prática. Porque, como Malinowski ensinava, às vezes as pessoas dizem uma coisa e fazem outra. Ex. A ideologia do parentesco e a prática nos modos de se relacionar.


A Biologia tinha um lugar importante no Funcionalismo de Malinowski. Ele ensinava que o organismo humano, contextualizado na família (com seus traços universais, e com seus aspectos socialmente específicos) – era cheio de necessidades biológicas e interesses egoístas. A sociedade ao seu redor (o contexto maior) com todas as suas especificidades, era usado e explorado pelo indivíduo (ele exemplificava o argumento com os Trobriandeses). Para Malinowski,o organismo com suas necessidades era, no final das contas, a força-motor da sociedade.


De acordo com a Profª Cecilia McCallum o ibope de Malinowski não vem desta parte do seu pensamento. Em vez disso, a sua importância e aceitação deriva do método etnográfico e dos seus estudos etnográficos, que são clássicos.


A rejeição ou pouca aceitação da versão de teoria funcionalista arquitetado por Malinowski em Londres contrasta com a grande influência exercida por seu rival e contemporâneo em Oxford, Radcliffe-Brown.


Continuando a utilizar os slides de Zagatto, a Profª Cecilia começa a enfatizar as obras de Radcliffe-Brown. The Andaman Islanders (publicado 1910 e republicado em 1922). A primeira publicação tinha influência do difusionismo, de Haddon e Rivers. Radcliffe-Brown fez um estudo dos nativos de Andaman, examinando as características físicas, língua, cultura, tecnologia. A partir disso ele fez uma reconstrução hipotética da história, para explicar suas origens.


A segunda publicação não mais apresenta um caráter historicista, predominando a influência de Durkheim (ele a reescreveu após ler “As Formas Elementares da Vida Religiosa”). O enfoque é dado na organização social, sobretudo nos mitos e ritos.

No livro The Social Organizacion Of Australian Tribes publicado em 1931 ele faz análise de diferentes sistemas de parentesco, o estudo do totemismo e a Teoria dos pares de oposição (retomada posteriormente por Lèvi-Strauss).

Em 1957 publica A Natural Science of Society. Radcliffe-Brown defendia que a sociedade funciona segundo leis que podem ser isoladas. Queria fazer da antropologia social uma ciência nos moldes das ciências naturais. Como faz a ciência natural, quando trata de revelar as leis da naturezza, a antropologia social devia revelar as leis da sociedade. Para ele a sociedade é coesa por força de uma estrutura de regras jurídicas, estatutos sociais e normas morais, que circunscrevem e regulam o comportamento; as Instituições como o sistema de distribuição da terra, as regras para solucionar conflito, a divisão do trabalho, etc.,contribuem para a manutenção da estrutura social. Essa é a função e causa da existência desses sistemas. A estrutura social existe independentemente dos indivíduos que a reproduzem. As pessoas reais e suas relações são agenciamentos da estrutura. E, finalmente, o trabalho de campo deve buscar os princípios estruturais abstratos e os “mecanismos” de integração da sociedade (“mecanismos” = “representações coletivas” de Durkheim).


A professora encerrou dizendo que quando se estuda diferentes sistemas, estuda-se a função das instituições que estão inter relacionadas dentro de um determinado sistema. Uma coisa causa outra que desencadeia outra. Então, quando se faz trabalho de campo tem-se que buscar os princípios estruturais básicos, abstrai o que observa para chegar aos princípios básicos. São os mecanismos de integração da sociedade. O importante é que se revela aqui a influência da visão durkheimiana.


Referências Bibliográficas:

A organização social das tribos australianas (1931). Disponível em: Acesso em: 29 out.2010;

Alfred Reginald Radcliffe-Brown. Disponível em: . Acesso em 29 out.2010

Bronisław Malinowski. Disponível em:
<> Acesso em: 29 out.2010

MCCALLUM, Cecilia Anne. Funcionalismo e funcionalismo-estrutural. Gravação da aula de 28.10.2010

MELATTI, Júlio Cezar.”Introdução” In Radcliffe-Brown: Antropologia cultural. Orgs. J.C. Melatti & F. Fernandes. Coleção Grandes Cientistas Sociais, São Paulo. Ática. 1978. pp7-35.

ZAGATTO, Bruna. Introdução ao funcionalismo e estrutural-funcionalismo. 2009. Slides







Informaçoes Biográficas sobre os dois autores:







A.R.Radcliffe-Brown (1881 - 1955)

ALFRED REGINALD RADCLIFFE-BROWN - Antropólogo britânico nasceu em Birmingham, Warwick, Inglaterra, criador do estudo das sociedades humanas como ciência. Realizou suas primeiras pesquisas antropológicas (1906-1912) nas ilhas Andaman, a sudoeste da Indochina, e na Austrália ocidental, a fim de estudar os sistemas de parentesco e a organização familiar dos povos aborígine. Defendia a condição de ciência para a antropologia e para as demais disciplinas das sociedades humanas, ensinou antropologia na Cidade do Cabo, África do Sul, e em Sydney, Austrália, Chicago e Oxford, nos Estados Unidos. Foi professor-visitante das universidades de Yenching, São Paulo e Faruk I, em Alexandria, no Egito, onde também dirigiu o Instituto de Estudos Sociais e morreu em Londres. Em sua obra literária definiu o fenômeno social como um conjunto de sistemas permanentes de adaptação, fusão e integração de elementos. Como importante antropólogo funcionalista, pesquisou os nativos das ilhas Andaman, no golfo de Bengala e seus principais trabalhos versaram sobre organização social das tribos australianas, sistemas africanos de parentesco e casamento e a estrutura e função nas sociedades primitivas. Seus principais livros foram The Andaman Islanders (1922), The Social Organization of Australian Tribes (1931) e Structure and Function in Primitive Society (1952).



B. K. Malinowski (1884-1942)

BRONISLAW KASPER MALINOWSKI–Antropólogo, polonês, nasceu na Cracóvia, Polônia, em 7 de abril de 1884. Seu pai, um professor de filologia eslava na Jagellonian Universidade e um lingüista e folclorista de certa reputação, era descendente da nobreza polonesa. Sua mãe, Józefa Lacka era lingüista e de uma família proprietária de terras cultivadas. Ele estudou escola pública João Sobieskilica e, depois, na Universidade Jagiellonian onde descobriu Sir James Frazer através da obra The Golden Bough, um evento que aguçou sua curiosidade sobre os povos primitivos e culturas humanas e sobre a sociedade. Foi assim que começou a ampliar seu foco de sua paixão original de matemática e física para os campos da filosofia e da psicologia. Entretanto, apesar dos reveses criado por sua saúde, ele conseguiu obter seu doutorado em Filosofia, Física e Matemática em 1908, graduando-Sub auspiciis Imperatoris, a maior honraria do Império Austro-Húngaro. Depois, ele retomou estudo na Universidade de Leipzig, na Alemanha, com foco em físico-química, onde ele também veio sob a influência do filósofo / psicologia pioneiro de Wilhelm Wundt - que seria similar influência sociólogo francês Émile Durkheim . Em 1910, usando uma bolsa para treinar como um professor universitário, Malinowski viajou para Londres, pesquisou no Museu Britânico. Ele estudou na Escola de Economia de Londres, com Edvard Fronteira Oeste , e recebeu o seu doutoramento em 1913, e seu PhD em Ciência em 1916. Viajou para a Nova Guiné, Austrália, e várias partes da Melanésia. E foi nesse período que começou seu trabalho de assinatura entre os ilhéus de Trobriand, estudando o parentesco, o comércio, os efeitos práticos do ritual e da religião, assim como a intersecção entre ideais culturais e comportamentos reais por dia. Escreveu vários livros, dentre eles, A família entre os aborígines australianos (1913), Os nativos de Mailu (1915), As Ilhas Trobriand (1915), Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), A Teoria Científica da Cultura (1922, Mito em Psicologia Primitivo (1926), Crime e costume na sociedade selvagem (1926), Sexo e Repressão na Sociedade Selvagem (1927), A vida sexual dos selvagens na Melanésia Norte-Ocidental (1929), Coral Gardens and their Magic (1935), Os Fundamentos da fé e da moral (1936).

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os fundamentos da antropologia social. Abordando o fenômeno da reciprocidade 2.

Autoras: Rebecca Patas & Tatiane Fernandes

Retomando e aprofundando o assunto da aula anterior, sobre o texto de Marcel Mauss, a aula de 26/10/2010 deu ênfase ao potlatch. O primeiro tema abordado foi a metodologia da Mauss, que explica as dádivas, os rituais, os fatos por meio da lógica interna de cada sociedade, citando vários exemplos, reforçando esse sistema lógico diferenciado. Mauss divergia dos evolucionistas no que diz respeito à comparação: segundo o ‘método comparativo’ desses últimos, tudo se mistura, e os objetos, instituições, costumes e crenças são abordados de uma forma descontextualizada. Para Mauss, tinha que entendê-los dentro do contexto onde eram praticados e criados.

Malinowski também insistia no estudo desses fenômenos em contexto. Como ele, Mauss rejeitou a idéia de “economia natural”, - baseada no pressuposto de que os indivíduos desejam apenas satisfazer suas necessidades, apenas fazer o que querem. Assim, defende que todo o ser humano nasce social, não egocêntrico natural. É perceptível a influência durkheimiana no trabalho de Mauss.

Quando de contempla a troca como base de um tipo de economia (que é social e não ‘natural’), as prestações não se dão como simples escambo, são dádivas que implicam numa relação duradoura. Para melhor compreensão, há uma comparação com os dias atuais: o escambo, como o comércio, é uma troca que não gera ligações profundas; em contraste, presentes de aniversário ou as comidas e festividades oferecidas na forma de dádivas, como o caruru de São Cosme e Damião, geram um laço entre os que participam, inclusive, os próprios santos que são convidados para se alimentarem das oferendas. Estes também engajam em relações sociais com os vivos que estão cumprindo antigas promessas.

Uma "prestação total" é aquela que envolve e integra elementos multiplos da vida social, religiosa, política, econômica de uma pessoa ´moral - quer dizer, uma pessoa jurídica (como um clã) ou física - normalmente, uma pessoa que representa uma coletividade, como um clã. Uma "prestação total se da por toda a comunidade: ao dar ou receber presentes e outras oferendas, sua representante contrata por todos, por tudo que possui e por tudo que faz.

Um exemplo dessas prestações totais é o potlatch, ritual dos povos nativos do litoral pácifo do noroeste do continente norte-americano abordado no texto de Mauss, como os Kwakiutl, Tlingit, Haida e outros. O potlatch acontece no inverno, que diz respeito ao ciclo anual, época de recolhimento que gera excedente. É realizado pelo chefe do clã, que convida outro chefe e seus parentes. A tribo convidada chega de forma ritualística, e é recebida com presentes, cermonias e uma abundância de comida, durante dias ou até mais tempo.




A competição no potlatch, detalhe que lhe dá a classificação de “prestação total de tipo agonístico”, se dá quando o convidado tenta superar o anfitrião no seu potlach de retribuição. Há um exagero de gastos, que tende a aumentar, consumindo bens de todo o tipo. Os governos canadense e estadunidense proibiram o potlatch no fim do século XIX, por considerar o ritual uma perda "irracional" de recursos – lembrando que em cada potlatch se consumia mais que o anterior. Com a compreensão do significado do potlatch, a proibição desapareceu em 1934 nos EUA e em 1954 no Canadá. A queima e destruição desses bens é uma oferenda aos deuses, o sacrifício, baseado nessa extinção de riquezas.

A professora apresentou uns slides com imagens de casas Kwakiutl, Tlingit e Haida e também de pessoas dessas nações que participavam dos ciclos de prestações do potlatch. Também detalhou outras características do potlatch, explicando que é realizado para celebrar uma ocasião social, por exemplo, marcando um evento importante (nascimento de uma criança, a puberdade feminina, os ritos funerários e o comércio); tem a função de adquirir status para o chefe, que é a encarnação da coletividade; e tem diferentes níveis de importância.

No outro lado do oceáno Pacifico, também existe "prestações totais", mas não existe potlatch. Mauss discute os tonga, presentes que um clã da para outro segundo relaçoes de parentesco e casamento. Os ciclos de prestações em Samoa já não são competitivos, ou seja, são bem differentes daqueles do potlatch. Mauss construi o esquema da sua explicação sobre as prestações de tonga - e sobre as dádivas em geral - através de uma discussão da noção Maori de hau. A obrigação de retribuir um presente dado (taonga)entre os Maori de Nova Zelândia vem do hau, o espírito da natureza e dos animais, que está nesse presente e deseja retornar ao seu lugar original. Assim, aquele que recebeu esse bem deve retribuir com outro bem, sob pena de reter esse ciclo. Caso não retribuem o presente com um outros presente, a conseqüência será doença e morte.

A obrigação de dar e receber é importante para a manutenção da sociedade: a recusa destes presentes é a recusa das relações sociais, gerando conflito. O sacrifício é uma espécie de dádiva aos deuses, da onde também se espera essa reciprocidade. As dádivas aos homens e aos deuses, portanto, têm a finalidade de comprar a paz com uns e outros.

Referências Bibliográficas:

Mauss, Marcel. ‘Introdução: Da dádiva, e em particular da obrigação de retribuir os presentes’ e capítulo 1 ‘As dádivas trocadas e a obrigação de as retribuir (Polinésia)’ .In Ensaio sobre a Dádiva.

sábado, 23 de outubro de 2010

As Formas Elementares da Vida Religiosa

Autores: RODGER RICHER SANTANA ROCHA & RENDEL PORTO

Resumo da 1ª aula - 9 às 10 horas - dia 21 de outubro de 2010:

Após avisos sobre a entrega do resumo V e a segunda chamada da prova realizada no dia 19/10/10, a professora Cecília dá início ao conteúdo trabalhando aspectos importantes sobre Durkheim e seu texto “ As Formas Elementares da Vida Religiosa” , o qual seria referência para a aula.

De princípio, fora demonstrada a importância da visão de Émile Durkheim mediante as relações sociais, visando entender a organização social; a sociedade. Esse prisma Durkheimiano serviu a Antropologia como fonte de grande influência. Se tomado, por exemplo, o Kula - estudado por Malinowski - percebe-se o caminho o qual conduz os antropólogos a entenderem as relações sociais que se estabelecem. Focando nessa perspectiva, a partir do livro “ As Formas Elementares da Vida Religiosa” , é possível verificar o foco central da Antropologia Social.




Com o intento de facilitar a compreensão, a profª Cecília faz uma retrospectiva sobre os principais conceitos presentes nas principais obras do escritor francês, partindo dos seguintes questionamentos: Quais foram os trabalhos que Durkheim fez antes de 1922 e quais foram as idéias que o influenciaram para compreender a religião? E qual era a relação que a Antropologia tinha com a religião?

Até então, na Antropologia, se estudava principalmente as religiões ditas “primitivas”, e as religiões da época clássica de Grécia e Roma antiga. No Século XIX poucos etnólogos se prontificavam a viajar para realizar estudos etnográficos, preferindo preparar grandes estudos de gabinete, os quais aplicavam uma abordagem evolucionista – ou seja tranado das origens imaginados da religião numa visão diacrônica. Na temática da evolução da religião supostamente primitiva, os evolucionistas estudaram o Totemismo (centrado na representação simbólica de determinado grupo social por algum emblema natural), Xamanismo, Fetichismo, etc.


Tornando a concentrar em uma retrospectiva sobre Durkheim, McCallum apresenta à turma as principais obras do mestre e seus conceitos fundamentais. Como preliminar para a disciussão sobre a abordagem que ele desenvolveu sobre religião, ela lembrou que o trabalho desse sociólogo francês se desenrolava no contexto da defesa do estado laico na França, onde muitos cidadãos eram veementem contra a presença da religião no estado.


Em 1893, Durkheim publica o livro “Da Divisão do Trabalho Social” . Em Suma, esta obra é uma exploração da diversidade e integração das diversas sociedades, analisando as funções sociais do trabalho nas sociedades e como estas contribuem para a coesão social.

Durkheim faz uma distinção entre dois tipos de solidariedade: Solidariedade Mecânica e Solidariedade Orgânica.

Solidariedade mecânica: A coesão se dá porque os indivíduos são similares, homogêneos. O processo de divisão do trabalho forma indivíduos que são cada vez mais capazes de perceber o quanto dependem dos outros. Tal solidariedade é característica das sociedades mais simples, onde os laços sociais são mais fortes, dessa maneira, uma maior coesão social. Algo mais parecido com a engrenagem de um relógio, onde cada peça depende inteiramente da outra. Pelos evolucionistas sociais do século XIX, estas são denominadas “sociedades primitivas”.

Solidariedade orgânica: A coesão se dá porque os indivíduos são diferentes, heterogêneos. Nesse tipo de solidariedade as relações sociais são mais complexas, e Durkheim trabalha justamente a complexificação das funções exercidas por um corpo social, no caso, as relações mantidas através de grupos, instituições, divergindo das sociedades mecânicas, onde as relações são mantidas através de indivíduos com outros indivíduos. Uma metáfora que traduz esse tipo de sociedade é vê-la como o organismo humano. Tal solidariedade é típica das culturas mais complexas, onde os laços sociais são mais fragilizados, também denominadas, pelos evolucionistas clássicos, “sociedades civilizadas”.

A idéia da morfologia e da fisiologia da sociedade, análoga aos órgãos biológicos, tornou-se quase como um dogma na Antropologia no metade do século XX.

Para Durkheim, a Sociologia é o estudo das interações sociais. e o papel das representações sociais nessas interaões.

Em 1895, Durkheim publica “As Regras do Método Sociológico”. A obra serve como um arcabouço teórico para a Sociologia – essa obra colhe frutos de sua importância até a atualidade. A regra fundamental do método consiste em considerar as relações sociais como fatos sociais. Uma regra essencial considera que os fatos sociais só podem ser explicados pelos mesmos.

Segundo a teoria Durkheimiana, não se pode fazer uma explicação social por meio de fundamentos biológicos, como, por exemplo, a teoria das raças, acrescentando que, também, não se pode fazer um reducionismo psicológico para se explicar um fato social.

Tudo o que foi dito se resume à idéia de que a sociedade é um fenômeno sui generis: a sociedade tem uma realidade própria (a sociedade existe fora de qualquer indivíduo, tem sua própria existência) e opõe-se à teoria econômica do século XIX, na Inglaterra, e à teoria econômica atual. A sociologia francesa opunha-se à teoria Econômica baseado no individualismo metodológico.

No livro “As Formas Elementares da Vida Religiosa” Durkheim vai desenvolver a sua teoria sobre o que é a sociedade sui generis.

Durkheim adota para a sua Sociologia uma visão racionalista, baseado na ótica Cartesiana (de Descartes, o filosofo francês). Esse aspecto da visão Durkheimiana é explorado em “ As Formas Elementares da Vida Religiosa” , no qual ele elege como objeto de estudo as representações coletivas religiosas. Ele focou o que ele chamou de “a origem da religião”, discutindo as religiões australianas, tidas como as mais “primitivas” existentes. Más, por “origem”, ele não queria dizer a mesma coisa que os evolucionistas.

Durkheim, divergindo dos evolucionistas, adota para seu estudo uma visão sincrônica sobre a religião, no qual ele tenta estabelecer os princípios fundamentais da mesma obtido pelo estudo do presente. Os evolucionistas por contraste, aplicavam uma visão diacrônica, ou seja, estudar o objeto com vista às mudanças presupostas ao longo do tempo. Para Durkheim, estudar uma religião primitiva era estudar a forma mais elementares de toda a vida religiosa: Levava a um entendimento de qualquer religião, não apenas aquela dos aborgines.

Então, o que é uma religião para Durkheim? È baseado em representações coletivas que compõem a consciência coletiva de um povo, representações essas que atribuem significados sagrados aos seus princípios morais. Segundo Durkheim, os princípios morais se tornarão sagrados como representações religiosas coletivas. Os princípios morais são racionais e inerentes à consciência coletiva, possuem uma forma lógica de ser - por exemplo, o totemismo. Tal fato denota um efeito de persuasão dos fatos morais. A consciência coletiva influencia os princípios morais, ratificando uma existência própria.

Durkheim diz que a sociologia não se fundamenta de um argumento tautológico, pois se refere a coisas distintas (sociedade e indivíduo). A consciência coletiva é social, e não se resume à soma das consciências individuais. É de outra ordem, separada, e superior.

Para Durkheim, o impacto emocional de participação em rituais leva à criação da consciência coletiva. Portanto, a origem da vida religiosa deriva do impacto do ritual social sobre o indivíduo. Colocado em outras palavras, a origem da religião é a sociedade. A vida religiosa tanto expressa simbolicamente a coletividade social, como faz com que exista. Religião não se trata de Deus ou qualquer entidade espiritual: trata de sociedade.

No livro “ As Formas Elementares da Vida Religiosa” , Durkheim escreve principalmente sobre os Aborígenes, e recusa que as sociedades denominadas “ primitivas” não tenham religião, assim criticando a percepção evolucionista de que o totemismo e as outras formas são primitivas ou pré-religiosos apeans. Durkheim observa a religião na perspectiva do social. Segundo Durkheim, a sociedade não existe sem a consciência coletiva.

Na vida cotidiana, os Aborígenes pertencem a diferentes clãs. No momento em que os clãs voltam a se encontrar eles originam tais religiões. O momento da “ emoção” torna-se um momento social na concepção Durkheimiana. Para Durkheim, o sentimento de “ saudade” do rito em cada indivíduo vai produzir coesão social.

De acordo com Durkheim, a dicotomia entre sagrado e profano é muito importante.

A profª McCallum define o conceito de totem: que designa um símbolo sagrado e poderoso do social, e tal símbolo é representado através de algo da natureza que diz respeito aos sentimentos que são comuns a todos os indivíduos pertencentes a determinado grupo, e este sentimento produz coesão social.





O argumento de “ As Formas Elementares da Vida Religiosa” : os totens são os ícones mais poderosos que se verifica para a integração do grupo.

Durkheim diz que a religião é derivada da consciência humana, e, por conseguinte, a religião vai formar as consciências humanas.

Neste capítulo Durkheim remete e retoma Aristóteles, que discorre sobre as categorias universais do conhecimento (tempo, espaço, número, e outros)

Por fim, a professora sugeriu que todos lessem o capítulo indicado!

REFERÊNCI A

Durkheim, Émile. ‘ Introdução’ . As Formas Elementares da Vida Religiosa. [1915]

domingo, 10 de outubro de 2010

A Dominação Masculina na teoria de Engels

Autoras: Lucila De Azevêdo & Jéssica Jesus

Resumo da aula do dia 05 de outubro

A aula começa com o questionamento sobre qual a origem da dominação masculina na perspectiva evolucionista. Friedrich Engels, evolucionista Marxista do Século XIX, procurou explicar essa dominação e exemplifou seu modelo com a cultura e sociedade dos Iroqueses.

Para Engels e Marx, a dominação masculina começa na época em que se cria a idéia e a prática de propriedade privada. A partir dessa teoria, no ‘Comunismo Primitivo’, a propriedade era comunal e as mulheres eram livres e produtivas e viviam em um regime de igualdade com os homens. Em termos produtivos, homens e mulheres eram iguais e também havia igualdade no domínio político. Nesse momento da evolução, segundo Engels, a sociedade era matrilinear, ou seja, as pessoas pertenciam aos clãs das suas mães. Não existia propriedade particular, apenas pertences individuais (objetos, roupas, ferramentas de fácil manufatura). Não havia herança de propriedade, ou seja, os objetos não passava de uma pessoa para outra após a morte do dono.

Baixo esse regime – que Engels e Marx chamavam "o modo de produção primitivo" - a família não era uma unidade econômica, sendo o clã a unidade ou instituição de maior significância econômica, isso porque a propriedade era comum, pertencendo ao clã e não aos indivíduos.

Tudo era de grande valor. Ter um filho era algo de grande importância. Desse modo, não só o papel das mulheres na produção econômica era valorizada, como também o seu papel na reprodução.

O argumento de Engels e Marx inspirou as feministas da década de 60 e 70 de século XX. Elas entendiam que, com o advento do capitalismo, a reprodução – vista como uma atividade feminina - havia sido culturalmente desvalorizada. Só em baixo do suposto ‘comunismo primitivo’ existia uma valorização desta atividade.

O modelo de Engels era de fato uma história imaginada ou conjetural. No entanto, Engels aproveitou do estudo etnográfico que Morgan havia feito dos Iroqueses para exemplificar o seu modelo teórico. A sociedade Iroquesa se organiza segundo um sistema de clãs matrileares. Morgan estudou esse sistema e também notou que as mulheres eram respeitadas e tinham um papel importante na escolha de representantes para o conselho das comunidades– a “Confederação Iroquesa”. Era a mulher que escolhia os homens que o iriam compor esse conselho. Para Engels, essa sociedade era um exemplo do modo de produção primitivo.

Más como acontecia a evolução de um estágio para outro, ou melhor (usando a terminologia marxista) de um modo de produção a outro?

Voltando à história imaginada contado nesse modelo da evolução social: Aos poucos, os homens, além de caçar, começaram a domesticar animais e, como só os homens faziam o trabalho braçal (tese não aceita pela maioria dos antropólogos, visto que contradiz os fatos relatados nos documentos históricos, , por exemplo sobre os iroqueses), eram os donos desses animais. Inicia-se, então, a propriedade particular que começa a ser passada hereditariamente apenas entre os homens. Com isso passam a existir diferenças de poder entre os sexos e também as famílias, visto que uns conseguem acumular mais que os outros. Surge, assim, a desigualdade sexual e social. Aliado à propriedade privada, aparece a necessidade de se reconhecer a paternidade criando-se assim uma sociedade patrilinear que reforça o poder patriarcal. Nesse domínio patriarcal, as crianças eram “propriedade” do chefe (homem) da família. O exemplo clássico desse tipo de sociedade na literatura evolucionista é a Romana, onde o poder patrius era legitimado na lei.

Que diferença fez a propriedade particular para o sistema econômico? No "modo de produção primitivo", o que é produzido tem, apenas, “valor de uso”: O que os indivíduos produzem, consumem para a sua subsistência. Não há sobras nem excedentes. A propriedade privada, por constraste, representava a possibilidade de se ter excedente; podia ser acumulado ou então trocado em comércio. Tinha – na teoria marxista – “valor de troca”.

Para os Marxistas a diferença entre o “valor de uso” e o “valor de troca” é fundamental para toda a história da evolução social até a invenção do sistema capitalista.

Voltando ao “modo de produção primitivo”, a transformação radical que ocorreu nas relações internas da família levou à transformação das relações sociais externas, em sociedade.

Para os antropólogos físicos do século XIX, seguidores da "Teoria das Raças", o determinismo biológico era o que levava a inferioridade da mulher em relação ao homem. Em vez de determinismo biológico, Engels adere ao determinismo material (e nisso ele e Marx seguem Morgan).

No seu capítulo do ‘Iroquois Women: an ethnohistoric note’ no livro editorado por Reiter, Toward an Anthropology of Women. (1975, Judith Brown questiona sobre a origem do alto status da mulher Iroquesa. Segundo Engels, se baseou na importância das mulheres na produtividade. Mas, Malinowski se utilizaria do exemplo de comunidades aborígenes australianas, onde a mulher é altamente produtiva, mas não detém nenhum status e poder, para refutar essa tese.

Para Brown, para que as mulheres obtenham alto status, a produtividade das mulheres deve estar aliada ao exercício do controle político da esfera econômica. As mulheres iroquesas controlavam a economia, pois a elas pertenciam a terra, as sementes, etc. Controlavam o trabalho produtivo e havia produção agricola em abundancia. A distribuição também era controlada pelas mulheres.



A imagem mostra mulheres Iroqueses trabalhando


Não se pode atribuir o sistema de poder feminino iroquês simplesmente à produtividade. O poder estava diretamente relacionado ao controle econômico e ao poder político.





Referencias Bibliográficas
Engels,

Brown, J.K. 1975. ‘Iroquois Women: an ethnohistoric note’. In Reiter, Rayna: Toward an Anthropology of Women. New York and London: Monthly Review Press. Pp.235-251.

Engels, F. A Origem da família, da propriedade privada e do Estado, Ed. Civilização Brasileira, RJ, 1974. [1884]